Da revista

Palácio de Wahuang: o templo de Nüwa na falésia do condado de She

O palácio de Wahuang, no condado de She, honra Nüwa, a deusa que remendou o céu, e guarda duas grutas de escritura budista da Qi do Norte gravadas na falésia. Os edifícios do templo são Ming; o mito e o texto em pedra são mais antigos, e o sítio continua a ser tratado como santuário.

Na mesma cidade · Handan ↗

Uma parede de caracteres

Na parede rochosa do monte Fenghuang, no condado de She, no oeste de Handan, a escritura budista está gravada diretamente na pedra. Duas grutas do complexo do palácio de Wahuang contêm a maior parte dela: as fontes chinesas dão mais de 131 000 caracteres; outras contagens ficam pelos 130 000. Qualquer dos números faz dela o maior conjunto sobrevivente de escritura da Qi do Norte gravada em falésia na China.

A obra começou no século VI, sob os Qi do Norte. O que resta é o próprio texto, um corpo de caracteres que sobreviveu à dinastia que o mandou gravar por mais de catorze séculos.

O palácio de Wahuang é em si um conjunto de palácios e templos junto à montanha, não uma fundação budista. Honra Nüwa, a deusa do mito chinês que fez os seres humanos e remendou o céu. As salas construídas e o texto gravado pertencem a religiões diferentes e a séculos diferentes, e ficam na mesma encosta: o santuário de uma deusa criadora e, ao lado, a escritura em pedra. Todo o conjunto é tratado como santuário ancestral de toda a humanidade, uma pretensão que pertence ao mito e não à alvenaria.

A montanha fica no condado de She, que tira do sítio o nome de pátria da cultura de Nüwa. Os seus templos não foram construídos pelos Qi do Norte. Os palácios e templos sobreviventes começaram a ser erguidos sob o imperador Wanli, dos Ming, mil anos depois de a escritura ser gravada, e é por isso que o lugar se lê em camadas: mito, depois texto em pedra, depois madeira e telha Ming.

Os edifícios do Palácio Wahuang, no condado de She.
Edifícios do Palácio Wahuang, no condado de She, Hebei, fotografados em 2019-09-07.

O céu que teve de ser remendado

O mito coloca Nüwa no princípio das coisas. Compilações posteriores registam que os antigos chineses acreditavam que ela fizera os animais do mundo e formara os seres humanos a partir de terra amarela no Dia das Pessoas, o sétimo dia do primeiro mês lunar. No período dos Estados Combatentes, no final dos Zhou, no século III a.C., a mesma figura explicava porque a terra se inclina, porque os corpos celestes se movem para noroeste e porque os grandes rios da China correm para sudeste. Um deus ou monstro das águas, Gonggong, danificou o monte Buzhou depois de perder uma batalha pela liderança entre os deuses. Nüwa derrotou-o a ele e ao seu tenente Xiangliu, e depois reparou o céu com gemas de cinco cores e as quatro patas da tartaruga marinha Ao.

O Huainanzi, compilado pelos letrados de Liu An no início dos Han, no século II a.C., ligou estas histórias à província de Ji, a grande planície a norte do rio Amarelo. Templos a Nüwa começaram a ser construídos em torno do monte Fenghuang no final dos Han, no século II d.C., e a pretensão local é que este terreno viu os seus atos de criação e reparação.

A pretensão não pode ser testada, e as fontes não fingem o contrário: registam o que as pessoas acreditavam e onde erguiam os seus templos. O que pode ser datado é a persistência do culto. Um santuário fundado no final dos Han, com as suas salas sobreviventes erguidas nos Ming e ainda a atrair peregrinos, descreve uma continuidade que nenhum edifício isolado mostra. As grutas da escritura são a prova dura no meio dessa sequência: gravadas no século VI por budistas, e deixadas no lugar quando o templo ao lado mudou de dinastia e de estilo.

Duas classificações e um calendário

O palácio de Wahuang é protegido e promovido em duas vias. Em 1996, a Administração Estatal do Património Cultural classificou-o como sítio histórico e cultural protegido a nível nacional, no quarto lote dessas designações. Em 2015, a administração nacional do turismo atribuiu à área paisagística a classificação AAAAA, a mais alta do sistema chinês. A paisagem protegida cobre 2 600 mu, cerca de 1,67 quilómetros quadrados.

O sítio é tratado como santuário ancestral de toda a humanidade, e não apenas dos crentes chineses, e o seu calendário segue essa ideia. A atenção concentra-se entre o primeiro e o décimo oitavo dias do terceiro mês lunar, e de novo no Dia de Qingming, quando a peregrinação aumenta. A área paisagística também subiu de estatuto: outrora fez parte da antiga área paisagística de Chongzhou e hoje figura como área paisagística nacional sob o nome do palácio de Wahuang.

O que está no terreno é um conjunto de salas e templos junto à montanha, com as duas grutas da escritura escavadas na sua rocha. O mito não é transportado por um único objeto. É transportado pelo lugar e pela pretensão de que esta encosta é onde o céu foi remendado, uma pretensão que o templo faz no seu tecido e no seu calendário festivo, e não numa vitrina.

O texto em pedra dá à visita um segundo tema. Os caracteres não são ornamento; são uma biblioteca, gravada onde não podia ser mudada de lugar, e a sua sobrevivência é a razão pela qual o sítio importa ao estudo das inscrições e também ao culto. Um leitor de pé sob eles encontra uma decisão do século VI sobre permanência que os construtores Ming, mil anos depois, deixaram intacta.

Continuar a explorar · Palácio de Wahuang ↗
Créditos e direitos das fotografias
  1. Edifícios do Palácio Wahuang, no condado de She, Hebei, fotografados em 2019-09-07.Anagoria · CC BY 3.0 Fonte da fotografia ↗ Informação de direitos ↗ Reduzida proporcionalmente e convertida para WebP; sem corte.