Da revista

O leão de ferro de Cangzhou e a vila de canal em volta

O leão de ferro de Cangzhou pesa 32 toneladas e traz uma data de 953. Ergue-se na antiga cidade do condado, em Jiuzhou, e sobrevivem três explicações para a sua função, nenhuma provada; cada reparação desde 1957 trouxe um novo problema.

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Trinta e duas toneladas de ferro

O leão ergue-se na antiga cidade do condado, em Jiuzhou, no condado de Cang, na terra plana a sul de Cangzhou. É ferro fundido, e as suas medidas são improváveis para um só objeto: 6,264 metros do focinho à cauda, 2,981 metros de largura, 5,47 metros até ao alto da cabeça, com a barriga oca, e 32 toneladas de metal. A superfície traz inscrições, na sua maioria gastas até não se lerem. Do texto sobrevive o suficiente para dar uma data, e muito pouco mais. O seu outro nome é o rugido que reprime o mar, e esse nome é uma de três explicações do que o objeto servia. A primeira é que guardava a cidade: diz-se que o imperador Shizong dos Zhou Posteriores, na sua campanha para norte, pôs condenados a fundi-lo como trabalho forçado. A segunda é que guardava contra o mar, e daí o rugido. A terceira lê-o como mobiliário de templo: um texto tido como o Sutra do Diamante dentro da barriga, uma bacia em forma de lótus no dorso e, nessa leitura, uma figura de Manjusri que ali esteve, emparelhada com um elefante branco que levava Samantabhadra. Cada explicação encaixa numa parte do objeto. Nenhuma foi provada. O que é certo é o peso, a fundição oca e o facto de um animal deste tamanho ter sido fundido no século X. A barriga oca faz da figura tanto uma casca como um corpo.

O ano 953 e a vila de água

A inscrição no pescoço e ao longo dos dentes dá a data: o terceiro ano de Guangshun, 953, nos Zhou Posteriores. Cangzhou já era antiga então. Foi constituída em 517, nos Wei do Norte, a partir de partes das prefeituras de Ying e Ji, e tomou o nome do mar, do azul-acinzentado da água profunda. A sua sede mudou mais de uma vez: para a atual área urbana em 728, sob os Tang; para a vila de Changlu sob os Yuan; e nos Ming o condado foi integrado na prefeitura. Nos Qing pertenceu a Hejian, e a partir de 1731 a Tianjin. A relação da cidade com a água é a constante. O canal sul do Grande Canal atravessa a prefeitura, um dos dois distritos urbanos chama-se Yunhe, canal, e o novo rio Ziya também a atravessa. O sal é trabalhado aqui e há petróleo sob a planície. A população da prefeitura era de 7,3 milhões no censo de 2020 e de 7.227.700 no fim de 2024, com cerca de 1,4 milhões na área construída dos distritos de Yunhe e Xinhua e do condado de Cang. O leão pertence a essa vila de água tanto como ao pátio de templo onde talvez tenha estado: uma fera de ferro em terra baixa, posta a olhar para o que subisse o rio ou entrasse pela costa. A lista provincial de tesouros emparelha-o com a pagode de Jingxian, o grande bodisatva de Zhengding e a ponte de Zhaozhou.

Close da cabeça da estátua original do Leão de Ferro de Cangzhou.
Detalhe da cabeça do Leão de Ferro de Cang, em Jiuzhou, condado de Cang, fotografado em 2020-09-19.

Um objeto que resiste à reparação

A reparação é a história moderna do leão, e não é feliz. Foi tomado em mãos repetidamente desde 1957, e cada intervenção está registada como tendo produzido um novo problema que se somou aos danos. Ferro desta idade e espessura é um doente difícil: não pode ser refundido, e cada suporte ou revestimento altera a forma como o ar e a água chegam à superfície. O historial de classificação mostra o mesmo objeto a ser classificado e reclassificado. Em 1956 entrou na primeira lista provincial como leão de ferro; em 1961 entrou na primeira lista nacional como leão de ferro de Cangzhou; em 1982, quando a lista provincial foi reeditada, foi esse o nome usado outra vez. Os nomes importam porque ligam o objeto à cidade e não a um reinado ou a um templo. A cidade usa-o por sua vez: Cangzhou é chamada Cidade do Leão, e uma cerveja local leva o nome do leão. Não é coisa pequena para um monumento cuja função está em disputa. Um símbolo não precisa de ser explicado para funcionar. As inscrições ilegíveis no dorso e no pescoço são o contra-argumento: o objeto foi feito para dizer algo específico, e o algo perdeu-se. A sequência de nomes regista uma mudança no que se toma por ele: relíquia de um reinado na lista provincial, relíquia da cidade na nacional, emblema numa garrafa de cerveja. O que resta é um corpo, um peso e uma data.

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Créditos e direitos das fotografias
  1. Detalhe da cabeça do Leão de Ferro de Cang, em Jiuzhou, condado de Cang, fotografado em 2020-09-19.ScareCriterion12 · CC BY-SA 4.0 Fonte da fotografia ↗ Informação de direitos ↗ Reduzida proporcionalmente e convertida para WebP; sem corte.