Da revista

Wutai Shan: uma montanha construída ao longo de séculos

Cinco picos de topo plano, uma data de fundação em 68 d.C., 47 mosteiros subsistentes e duas tradições budistas a partilhar uma montanha: o que a paisagem de Wutai guarda, e o que os peregrinos fazem nela.

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Cinco picos, uma montanha

Vista da estrada que sobe desde Taihuai, a montanha não se lê como um só pico. Cinco cumes dispõem-se em volta de uma ampla bacia de encostas e vales, e a forma só aparece do alto de qualquer um deles: um anel de topos planos com os mosteiros reunidos no meio. Os nomes descrevem o que cada topo parece. Wanghai, o que observa o mar, fica a leste; Jinxiu, brocado, a sul; Cuiyan, rocha verde, no centro; Guayue, a que pendura a lua, a oeste; e Yedou, a norte. Os topos são rasos de árvores e suficientemente planos para terem sido comparados a plataformas empilhadas de terra, e é daí que vem Wutai, cinco terraços. O conjunto cobre 2 837 quilómetros quadrados, e o pico norte é o mais alto, com 3 058 metros.

Como cresceu uma montanha budista

A história da montanha começa com uma data de fundação e não com um edifício. O templo Xiantong foi estabelecido em 68 d.C., no período Yongping dos Han Orientais, quando o budismo era ainda novo na China; sob o imperador Tang Taizong foi reconstruído como Grande Templo Huayan. Sobrevivem dois salões de madeira dessa mesma dinastia: o salão principal do templo Nanchan, construído em 782, e o Salão Leste do templo Foguang, construído em 857. Os Qing converteram o Pusading ao budismo tibetano em 1656 e permitiram-lhe telhas amarelas em 1683. Restam quarenta e sete mosteiros, trinta e nove dentro dos cinco picos e oito fora deles. Em 2009, o comité do Património Mundial, reunido em Sevilha, inscreveu a montanha em duas áreas, o vale de Taihuai e o templo Foguang, nove templos no total.

Peregrinos a pé

A maior parte do caminho aqui faz-se entre mosteiros e não por um único trilho. Os templos de Taihuai ficam próximos o suficiente para se passar de um pátio ao seguinte numa manhã, de modo que o dia de um peregrino é uma cadeia de portões e beirais pintados e não uma subida. A ascensão mais nítida é no Pusading, onde uma escadaria de 108 degraus de pedra sobe dos templos de baixo até ao cume, o número de contas de um rosário. No sexto mês lunar, o Templo Amarelo celebra a sua festa do quarto ao décimo quinto dia, e os degraus e o terreiro acima deles enchem-se de gente. Em baixo, dá-se a volta à estupa branca, um circuito de poucos minutos que se repete.

Duas tradições budistas, uma montanha

Wutai é o único sítio budista da China onde as tradições chinesa e tibetana ocupam o mesmo terreno, e distinguem-se à primeira vista pelos telhados: telha vidrada amarela nas casas tibetanas, telha cinzenta nas chinesas. O amarelo começou em 1683, quando Kangxi permitiu ao Pusading telhas vidradas dessa cor; a conversão que está por trás veio em 1656, quando o mosteiro se tornou templo de lamas. Imperadores, príncipes e lamas Qing alojaram-se ali quando vinham em peregrinação. O budismo tibetano estivera ligado a Wutai muito antes dos Qing, e as duas tradições mantiveram casas separadas em vez de se fundirem. O que fica é um lugar onde um bodhisattva é invocado em duas línguas e duas liturgias: Manjushri, Wenshu em chinês, o bodhisattva da sabedoria, cuja casa se considera ser esta montanha.

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