O chá preto é a resposta da província à distância. A categoria define-se pela paciência: as folhas são empilhadas e envelhecem durante meses ou anos enquanto os bolores trabalham nelas, e a infusão sai castanho-avermelhada e turva — daí o nome. Os fabricantes de Anhua (安化) moldaram esse chá para o transporte, e o catálogo do condado lê-se como uma lista de logística: chá preto em tijolo, chá fu em tijolo, chá flor em tijolo, as grandes toras de mil cateis e os lotes de «pontas» soltas — tianjian, gongjian, shengjian —, graduados pela folha. A matéria-prima vem de um condado feito para o chá. Anhua fica no norte da serra Xuefeng (雪峰山), sobre o curso médio do rio Zi, quase no centro geográfico de Hunan; as montanhas cobrem 82 por cento dos seus 4.950 quilómetros quadrados, sessenta e três picos ultrapassam mil metros, e as listas de produtos do condado leem-se como um herbário — pinheiro, abeto, bambu, fruta, chá, camélia oleosa e uma centena de famílias de plantas lenhosas medicinais. O tijolo prensado era a tecnologia que permitia a uma quinta de montanha levar a colheita no lombo de um cavalo ou no porão de um barco: comprimido, seco, empilhado, indiferente à humidade de uma estação e cortado ou desfeito a medida no fim da estrada.
Da revista
Chá prensado num tijolo
O condado de Anhua prensa o chá preto em tijolos e toras feitas para serem transportadas. A folha, a estrada que percorreu e o condado que ainda o faz são os três tempos da longa viagem de um produto de montanha até ao mercado, da caravana à mesa doméstica.
Na mesma cidade · Cidade de Yiyang ↗De que é feito o tijolo
A estrada que o chá percorreu
A estrada tinha nome, e Anhua estava nela. O condado é registado como local de origem do chá preto Anhua e como nó importante da antiga Rota do Cavalo e do Té, a rede de comércio de longo curso que levava o chá comprimido do sul da China para o extremo noroeste do país. A partir de Anhua o primeiro troço natural era a água. O rio Zi drena o condado inteiro para leste, na direcção de Dongting e do Yangtzé, e os barcos navegaram-no há séculos; a geografia do próprio condado mantinha os troços terrestres íngremes — a sua sede, Dongping, fica a 240 quilómetros rodoviários de Changsha, e o troço fluvial Anhua–Taojiang ainda estava a ser ampliado para barcaças de quinhentas toneladas neste século. A distância é precisamente a razão pela qual o chá prensado, denso em valor, fazia sentido como exportação: um cavalo pode carregar tijolos no valor de um salário de uma estação, mas não folhas frescas de uma estação. A fundação do condado diz a mesma coisa duas vezes. Anhua foi outorgado em 1072, o seu nome lido como «pacificado e transformado pela virtude», quando o estado Song forçou a abertura das colinas de Meishan (梅山) —, e o chá tornou-se a mercadoria que essas colinas recém-abertas entregaram ao império em troca.
O condado e a chávena
A indústria de hoje é um projecto de condado com memória longa. O chá preto de Anhua está no topo da lista publicada de produtos especiais de Yiyang, e o condado — cerca de 780.000 habitantes no censo de 2020 —, reconstruiu-se em torno da folha: jardins de chá nas encostas, fábricas de prensagem nas vilas e um percurso turístico que inclui o troço do condado na antiga rota do cavalo e do chá como sítio cénico com nome, ao lado do parque florestal nacional de Zhexi (柘溪) e das terras altas de Meishan que partilha com Xinhua. A bebida passou da caravana para a mesa doméstica. O chá preto que se prepara é cortado ou desfeito do tijolo, fervido ou deixado em infusão e bebido ao longo do dia; o condado acompanha-o ao seu porco curado e à sua sopa de chá moído, o leicha (擂茶), do mesmo modo que outras regiões acompanham o vinho ao queijo. Atrás do romantismo está uma economia rural modernizada — mineiros, energia e manufactura nas vilas do vale, a barragem de Zhexi que domina o rio Zi, auto-estradas a cruzar os 82 por cento de montanha —, de modo que a chávena assenta numa infraestrutura a trabalhar que as caravanas de chá nunca tiveram. O que persiste é a forma do comércio: montanhas que cultivam uma folha que as planícies não dão, e um rio que uma vez a levou a mercados de outro mundo.

