A garganta de Mingyue guarda os buracos de um antigo caminho de pranchas, uma autoestrada moderna e o caminho de ferro Baoji-Chengdu num só corredor estreito acima do Jialing.
Texto Redação de IFreeing3 min de leituraGarganta de Mingyue · Guangyuan
Buracos quadrados
O primeiro vestígio da estrada antiga é uma fila de buracos quadrados na escarpa, abertos a uma altura regular acima do Jialing. Sustentavam as vigas de um caminho de pranchas, uma passagem fixada à rocha onde não havia margem para construir. Os buracos estão vazios, e é isso que os torna legíveis: vê-se a linha que seguem, a maneira como mantêm o nível e os pontos em que a rocha os obrigou a subir ou a descer. A garganta de Mingyue é um trecho da garganta do Jialing em Chaotian, Guangyuan, e a escarpa é usada como estrada há muito tempo. Os buracos são a letra da estrada, deixada depois de a madeira apodrecer ou ser levada.
Um museu de métodos
O local apresenta-se como um museu das estradas da China, e a expressão é mais exacta do que parece. Num curto espaço, a garganta mostra várias soluções para um só problema: como fazer passar pessoas e mercadorias ao longo de um rio sem terra plana. O caminho de pranchas é a resposta visível mais antiga, cortada e fixada na escarpa. A autoestrada moderna é a mais recente. Cada percurso tem a sua engenharia e a sua maneira de lidar com a água. Um museu costuma colecionar objetos. Este coleciona métodos, e a coleção é a própria garganta. É por isso que o local se lê como um argumento e não como uma exposição, e por isso a autoestrada é a frase mais recente desse argumento.
Um corredor estreito
As estradas modernas e o caminho de ferro Baoji-Chengdu atravessam a mesma garganta. Essa coexistência é o verdadeiro assunto do local. O caminho de ferro precisava de uma inclinação, a autoestrada precisava de largura, o rio manteve o seu leito. O resultado é um corredor estreito onde vários tipos de percurso se sobrepõem e onde o som de um comboio ou de um camião chega antes da coisa em si. De pé na passagem, ouve-se o tráfego que não se vê, e depois ele aparece do outro lado da garganta. A estrada antiga não está preservada em isolamento. Está preservada no meio do tráfego que a substituiu. A garganta é estreita o suficiente para que um comboio e um camião se ouçam no mesmo fôlego.
Ler um corredor
Este é um lugar para ler, não para admirar. A escarpa dá a dimensão vertical, o rio a horizontal, e as estradas o argumento. O antigo e o novo vêem-se juntos, o que é raro: a maioria dos sítios patrimoniais retira a infraestrutura que os tornou obsoletos. Aqui a infraestrutura é a vizinha da peça exposta, e a vizinha faz barulho. A passagem é curta, e a visita consiste sobretudo em olhar de través e para baixo. O que fica é a proporção, a linha fina do caminho de pranchas contra uma escarpa que não mudou, e a facilidade com que uma estrada moderna ocupa o mesmo espaço. Nada aqui está arranjado para uma fotografia, e é por isso que o lugar se recorda como um som.